Um certo Jaques Netan
Carlos Nejar, que se consagrou como um dos nossos mais importantes poetas, aparece nesta narrativa de uma forma inusitada, prendendo o leitor entre o sonho e a realidade, por meio de um texto vertiginoso, hipnótico, em que Jaques Netan, quixotescamente lúcido, é a própria condição humana. Ou, antes, é cada um de nós, sob o avanço inexorável do destino, círculo, pesadelo, opressão política (totalitária) ou social, barbárie — em suma, de todas as formas-símbolos do labirinto que nos envolve e que nos impele ao desconhecido, sem, às vezes, sequer nos apercebermos.
Jaques Netan é vivo, como todos nós.
Sua ligação com outros personagens, entre fabulações e invenções, apresenta-nos um universo estranho, múltiplo, com a luta terrível da liberdade e sobrevivência, do tempo contra a duração, do que persiste existindo contra toda a morte.
Ninguém conseguirá abandonar este livro instigador, de períodos breves, elipses, cortes, que atingem certeiramente a experiência do leitor. Trata-se de livro de paixão, simples e universal, corajosamente humano, de um grande ficcionista. E, por sua dimensão profética e apocalíptica, veio para ficar.
- ISBN: 9786561230179
- Acabamento: Brochura
- Páginas: 74
- Edição: 2026
- Autor: Carlos Nejar
Um certo Carlos Nejar
Austregésilo de Athayde
Que ele era e é um dos grandes poetas do Brasil, esse Luiz Carlos Verzoni Nejar, todos quanto lidamos, com o mundo literário, bem o sabíamos e por isso tanto o admirávamos.
A grande revelação que tive dessa magna figura me foi feita por estrangeiros quando, faz quatro anos, se realizou em Campos, no Solar da Baronesa, um Seminário de Tradutores de Literatura Brasileira. Todos ficamos de certo modo surpreendidos, vendo que Nejar aparecia em primeira menção feita pelas figuras mais ilustres que ali acorreram para um contacto mais direto com a vida literária do Brasil. Verificamos quanto é possível que alguém crie lá fora um grande nome e aqui dentro, na multiplicidade tão variada das nossas letras, um escritor passe um tanto à margem das nossas preocupações.
Hoje, depois de eleito para a Academia Brasileira de Letras, com todos os títulos que o recomendam para essa escolha, é que podemos ver as dimensões desta alta personalidade com que o Rio Grande do Sul, mais uma vez, entre nomes ilustres, brinda o Brasil, engrandecendo o patrimônio de sua cultura.
Nejar não é apenas o grande poeta, é o escritor de vocação — claro, objetivo, penetrante, como ensaísta, sociólogo, crítico literário, sem dúvida ocupando, no mundo lusófono, entre traduções de suas obras nos idiomas mais cultos, uma posição que a todos os seus companheiros, e a massa dos leitores, que cada vez mais se avoluma, seduz pela forma de linguagem, pela argúcia e serena visão penetrante da psicologia humana. Um certo Jaques Netan é a primeira novela desse certo Carlos Nejar.
No final dessa novela, Nejar desvenda a essência misteriosa do livro. O Sistema pode ruir, a morte pode ruir. Existe, ainda a palavra. E com ela um homem não pode ser derrotado. Está em todos. O medo é a pálpebra da escuridão, o tempo. A palavra é espírito.
Carlos Nejar e Jaques Netan identificam-se. Não é uma biografia, mas as duas figuras patenteiam-se na secreta transcendência do seu pensamento, como legítima expressão de sua unidade estética.
Jornal do Comércio, Rio, 04.12.1991.
