Aderbal Semei, professor ludovicense de História, retorna a seu apartamento em São Paulo, cujos objetos em desarranjo parecem vaticinar-lhe pragas quase míticas. Aka Laurência, a mulher que o amou, talvez o tenha abandonado e levado consigo o discernimento que ao menos permitiria a Semei acautelar-se quanto às linhagens de demônios que insistentemente cerram seus caminhos.
Partindo, pois, desse cenário assombrado por sombras polvorosas, gatos eriçados e famélicos e no qual as marquises são como convites ao salto derradeiro, Karleno Bocarro ergue um painel sombrio da turbação e queda de seus personagens, no qual cada gesto e verbo carregam o peso de uma maldição arraigada.
Num mundo de almas que oscilam entre o transe e a paralisia, o protagonista deste romance, assim como seu homônimo bíblico que amaldiçoou o rei ungido, atravessa a cidade como um homem de sangue, ainda que, insciente dos confins de suas próprias culpas, continuamente semeie sal nas planícies de seu próprio espírito.
O Advento é a história de um milagre inverso: um êxodo interior que conduz não à libertação, mas a um abismo irresgatável da consciência.
- ISBN: 9786561230216
- Acabamento: Brochura
- Páginas: 634
- Edição: 2025
- Autor: Karleno Bocarro
Formado a partir de uma confluência de tradições muitas vezes tidas como divergentes, quando não antagônicas, este romance — erguendo-se inicialmente sobre uma camada de sedimentos de um “realismo sujo”, em que as forças da deterioração e pulsões parecem sujeitar-nos (como os personagens) a um regime ora ctônico, ora gnóstico — suprassume esses elementos refratários, delineando em seguida uma arquitetura verdadeiramente metafísica, em que os processos do mundo, o espírito da época e a dinâmica das presentes obsessões são todos transfigurados num drama em que o Mal assoma não na sublimidade ou na intensidade dos grandes momentos, mas sobretudo nos refolhos e rugosidades do cotidiano. Esse mundo enxundioso, febril e viscoso construído por Karleno (o nosso Brasil contemporâneo) é habitado por entes cujas almas, embora quase sempre impermeáveis ao amor e à contemplação, abrem-se de bom grado a toda forma de conspurcação e excesso do ser.
Com um estilo que mescla o trágico e o banal, o pungente e o caricaturesco, o autor, gestando lentamente uma ambiência densa e pertinaz, anuncia um advento sombrio, em que cada palavra, como se vinda de uma profecia cruel, adquire um peso quase físico. Trata-se, pois, de um feito original, portentoso e incontornável na literatura brasileira contemporânea.
— Fabrício Tavares de Moraes
