Deus oculto no canto do córner
Milton Gustavo dá voz a um velho cínico — uma das vozes mais marcantes da ficção recente — cuja sinceridade fere, diverte e redime; um treinador que crê na capacidade humana de controlar o futuro por meio do trabalho e da vontade.
Num mundo onde a Providência age discretamente entre empresários corruptos, ídolos decadentes e golpes baixos, surge Zezão, um campeão improvável, que é mais que um pugilista: é o anti-herói de uma epopeia nacional às avessas, um retrato vivo da alma brasileira, oscilando entre o riso e a ruína, a gambiarra e a glória.
Ao evocar os anos noventa com precisão e irreverência, sem concessões ao politicamente correto, este clássico em formação entrelaça humor mordaz, memória inventada e crítica feroz ao nosso tempo.
Semifinalista do Jabuti, saudada por críticos como “absolutamente excepcional” e comparada à prosa de Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca, O Deus oculto no canto do córner, revigorada em segunda edição, é um raro exemplo de narrativa que une fôlego literário, sátira corajosa e um aceno redentor à alma brasileira.
- ISBN: 9786561230148
- Acabamento: Brochura
- Páginas: 184
- Edição: 2025
- Autor: Milton Gustavo
Há muitos escritores que — talvez interpretando descuidadamente a célebre metáfora de Cortázar segundo a qual o conto vence o leitor por nocaute, ao passo que o romance, por sua transpirada extensão, o vence sempre por pontos — ignoram o fato de que, embora menos espetacular, a vitória obtida pela resiliência, contundência e movimentação implica, em última análise, se não uma dominância sobre o oponente (o leitor), ao menos uma maior capacidade estratégica; afinal, o romance é a arte da acumulação. Em seu romance de estreia, Milton Gustavo, trazendo para a linguagem a incisividade do boxe, como já o fizeram um Rubem Fonseca e um Hemingway, nos oferece uma narrativa ágil e enérgica, na qual os meandros e nichos de nossas vidas confluem, por meio da voz intensa e cômica de um treinador, com os obscuros ângulos de uma arena, para além dos holofotes.
— Fabrício Tavares de Moraes
Autor de À sombra da modernidade
Milton Gustavo lança mão, despudorada e habilmente, de um clichê muito explorado nos cinemas: um treinador ranzinza descobre um jovem talento, de bom coração, mas embrutecido. Esse jovem, um lutador, é tirado à sua caverna e nasce um campeão, que se torna autoconfiante, colhe os louros e revigora a vida do próprio treinador. Diria ainda que teve uma trajetória de humanização análoga a de Pinóquio, que começou como um boneco de pedra, talhado e humanizado pelo treinador, que seria o seu Gepetto, e pelas circunstâncias adversas inerentes à fama. Os ditos clichês, porém, são uma isca que conduz o leitor pelo meandros de um romance de formação, em paralelo com a restauração revigorante da linguagem e cultura dos anos noventa, passando pela relação com empresários e patrocinadores, ícones do esporte, flertes perigosos, conspirações mafiosas, considerações desairosamente hilárias sobre outros esportes, além de intervenções misteriosas não de um deus ex machina, e sim do inusitado da Providência, uma presença tão discreta quanto determinante dessa história exemplar.
— Jessé de Almeida Primo
Crítico literário
A literatura brasileira contemporânea sofre de irrealidade: nem os autores acreditam na existência dos seus personagens. O Milton Gustavo acredita nos personagens de O Deus oculto no canto do córner, e o resultado disso é que o leitor acredita também. O velho treinador, o lutador e até mesmo os personagens secundários são todos muito vívidos, e os episódios ficam marcados na mente do leitor (bom, deste leitor pelo menos, mas imagino que de todos) como se fossem memórias de coisas que aconteceram na sua própria vida.
— Alexandre Soares Silva
Autor de A humanidade é uma gorda dançando num banquinho
Que belíssimo romance é O Deus oculto no canto do córner, semifinalista do Jabuti deste ano: ao contar a trajetória do seu boxeador, Milton Gustavo conseguiu criar um dos melhores personagens e narradores em primeira pessoa dos últimos tempos — o treinador velha-guarda-ranzinza-de-Monza —, sob uma extraordinária representação estilística da linguagem falada. A coragem de não fazer concessões ao politicamente correto ajuda bastante, com certeza.
— Rodrigo Duarte Garcia
Autor de Os invernos da ilha
